sexta-feira, 2 de março de 2012

Vício Frenético

Eita fissura danada!
Procuro em meus esconderijos tradicionais...
Reviro minha mesa,
esvazio minhas gavetas,
melhor será jogar tudo no chão
e olhar minunciosamente...
dor de cabeça constante, o corpo inteiro pinica...
Eu sei! Eu sei que me faz mal.
Não precisa me avisar,
mas não posso mais pensar noutra coisa.
Isto se tornou mais urgente
que meu trabalho,
que minha família,
que minha vida!
Lembro que deixei qualquer coisa
ali, naquele armário...
Derrubo tudo, instauro um caos...
Penso em algum amigo,
mas quem me ajudaria a esta hora da madrugada?
Ligo para um que não me contesta...
dorme o filho-da-puta.
Ligo para o segundo, também poeta,
"De baixa"
fala friamente ao telefone,
como se eu fosse o culpado de sua pena.
Não durmo. Não como.
Não consigo me distrair
com o seriado idiota na TV...
Nem posso pensar em ler.
Mas recordo:
Talvez tenha deixado algo cair de mim
lá, na área de serviço.
Corro.
E, desesperadamente, de joelhos,
busco qualquer resto
de palavra em pó
ou qualquer pedaço
de palavra em pedra...
uma sílaba extraviada,
um quarto de palavra,
que eu possa dissolver em minha mente
e transformá-la
em estrada ou mar,
em loucura ou vidência,
em deus ou poema.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Na novela

Na novela,
todo galã
acorda com hálito de maçã
e a mocinha tão bela
nunca tem remela,
e sua boca tem sabor
de canela
ou hortelã.
E beijam-se e amam-se
pela manhã.

Bem diferente é lá  em casa,
(mas a gente faz do mesmo jeito)
e por mais que minha gata
seja um anjo sem asa
quando sentimos o cheiro
da boca um do outro
só conseguimos recordar
o cheirinho do esgoto.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A cor do amor

Amaro amara Amara
Mas Amara não o amara
Amara nunca amara nada
Nem ninguém
E Amaro, que tanto a amara,
pediu licença,
comprou uma imensa mala
amarela
foi embora
e deixou
de amar ela.

"Não sou mais menina"

Quando admitiu o prazer anal
todos quiseram provar
do cu-doce da Sandy

Historinha Romântica

Quando fui te conhecer
vesti meu melhor sorriso,
aquele que só usava em dias de festa,
me perfumei com as melhores palavras importadas
“I love you, mi cariño, ma chérie”
Baudelaire, Neruda, Shakespeare.
Calcei um par novinho de coragem
feito do mais puro e belo
papo de jacaré-do-papo-amarelo.
Levei um buquê de beijos,
uma caixa de abraços,
uma poesia minha também
que dizia:
“Tudo isso e muito além!”
E uma garrafa, há muito guardada,
de um amor espumante
para selar nossa união

Mas você desdenhou meus presentes.
Me destratou sem motivo algum
e saiu com um saradão,
desses de academia,
que só fez te chifrar o tempo inteiro

Pois é, meu bem, o tempo passou...
O meu sorriso permaneceu intacto,
ainda o uso sempre que posso,
aquelas palavras nunca perderão
seu aroma de carvalho
e os meus calçados corajosos,
quando lustrados ficam novos.
Mas aqueles presentes que eu ia
te dar, naquele dia,
ou murcharam ou estragaram.
Aquela poesia se extraviou
Em alguma gaveta qualquer da memória
e aquela garrafa, que ficou
por tanto tempo empoeirada
no subsolo de minha adega,
já abri
e me embriaguei com outra pessoa.