terça-feira, 28 de agosto de 2012

Éden

Não neguemos ao lírio
nem o sol nem o orvalho,
esperemos brotar a manhã
em seu fino prisma
dissipando as cores do arco-íris
entre suas pétalas.

Não neguemos à raiz
poder destroçar a casca da semente
e atirá-la longe, muito longe
de nossa vista,
para que aí fiquemos a sós:
eu, você e a planta.

Não neguemos ao jasmin-noturno
a moça a enebriar seus cabelos
e beijá-los com seus narizes,
colorindo as manhãs
e os crepúsculos.

Não neguemos ao coqueiro
seu ato religioso de dobrar-se
em reverência a sua majestade,
o vento.

Não neguemos às maçãs
seu direito de cair sobre nossas cabeças
e, assim, atentar-nos para a gravidade
de levar-nos tão a sério.

Não neguemos às mangas verdes ou rosas
seu dever de serem doces,
saborosas e suculentas ao abrir-se
para a língua erótica
a lambuzar-se.

Deixemos que as árvores cresçam,
elevem-se aos céus
e busquem a sabedoria de sua luz,
que estourem o cimento das calçadas,
destruam muros e cercas.

Deixemos que se apoderem
de tudo o que é primordialmente seu:
as casas, as estradas, os jardins,
nossos carros e corpos,
que cubram os nossos olhos,
cabelos e sexos.

Deixemos que a erva cresça
em nossas cabeças
e que consuma
todos nossos sentidos
e que, em sua música,
nos traga o som da chuva
e o bater das asas da mariposa.

Deixemos que a erva cresça:
não neguemos a ela seu direito de existir.

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